Obra vencedora da seletiva A Página Adorada:

"LUZES DO NORTE"


Vivendo de Inventar, 18 de Janeiro de 2019


GIULIANNA DOMINGUES


Feminista e escritora Hardcover antes de qualquer coisa. Tem 26 anos e devora livros como quem bate uma macarronada, lendo qualquer gênero entre fantasia e bulas de remédio. Já quis ser equilibrista (e ainda faz mil coisas ao mesmo tempo), advogada (e está sempre disponível para um bom debate) e astronauta (e felizmente caiu na real sobre sua habilidade em exatas). Depois de estudar em Hogwarts, fez uma especialização em design gráfico e marketing, e hoje trabalha no Google para impedir a chegada da Skynet. Vive com seu marido num cantinho da Califórnia chamado Mountain View (sim, dá pra ver as montanhas) e passa pelo sofrimento diário de explicar que no Brasil se fala português, e não espanhol. Acredita, fielmente, que palavras são mágica no mundo real - e, por isso, são suas armas de escolha.

CLASSIFICAÇÃO:

André Vianco

Escritor Best-Seller

Fundador da Vivendo de Inventar

Impecável! Um passeio por sentimentos e imagens.

Margareth Brusarosco

Consultora de Narratologia

Realmente esta é a página adorada. Totalmente perfeita!

Juan Ricarte

Social Media Manager

Extremamente habilidosa e precisa. Uma narradora incrível!

LEIA A PÁGINA VENCEDORA...

Dimitria farejou o ar, sentindo o frio invadir suas narinas e pulmão. Era o último dia do verão - o
que, no Norte, significava que o inverno estava prestes a fazer sua cama branca e gélida. Claro, ainda
havia o outono por vir - as árvores ficariam secas, perdendo seu viço para queimarem em laranjas e
vermelhos - mas isso tudo seria no espaço de semanas. O povo de Nurensalem sabia que o vale só tinha
duas estações: o frio, e a espera por ele.


Para uma caçadora o outono não era só um mal presságio - era o relógio que contava o fim de sua
temporada, para bem ou para mal. Se o caçador tivesse tido um bom verão, conseguiria colocar comida na
mesa para sua família durante os meses frios que viriam - senão… Ela preferia não pensar no "senão".

 

Por sorte, Dimitria não era somente uma caçadora - era considerada a melhor caçadora do Cantão
da Romândia. Mesmo que seu verão não tivesse sido particularmente produtivo - a escassez tinha sido
notável aquele ano - havia uma última chance de conseguir algum sustento para sua pequena família e
estava naquele último dia glorioso. Na verdade, o dia já havia virado noite: os rastros de sol derradeiros
derretiam do lado esquerdo do céu, manchando a abóbada de laranja e cor-de rosa. Do outro lado, já se
podia ver a noite cheia de estrelas, sua coberta de sombras escondendo o mundo.


Era com isso que Dimitria contava: seu esconderijo era precário quando iluminado pelo sol, mas
seria perfeito uma vez que não houvesse mais luz. Ela achatou as costas largas contra a madeira do
estábulo, sabendo que a noite também convidaria sua presa para o passeio. O urso que ela caçava devia
ter meia tonelada e quase dois metros de altura, mas também usava a noite para se esconder.
Ela sabia que era um urso por causa dos rastros que ele deixara em seu ataque anterior. O verão
tinha sido insuficiente para ele, também, e em seu desespero e fome, o estábulo dos van Vintermer era tão
convidativo quanto um banquete. O urso tinha matado dois cavalos puro-sangues na primeira noite, e só
não terminou de comê-los por causa dos gritos dos guardas da família. A experiência de Dimitria dizia que
apesar de o bicho ter conseguido arrancar um bom naco do primeiro cavalo, não era o bastante para
matar sua fome. Ele voltaria muito cedo.


Por isso mesmo Bóris van Vintermer a tinha contratado. Não que sua riqueza fosse sofrer por causa
de alguns cavalos, mas aquele era seu estábulo particular e abrigava o potro preferido de Astra van
Vintermer, sua caçula. A perspectiva de derrubar um urso branco não era muito convidativa, diferente da
oferta que o patriarca havia feito: por aquele tanto de dinheiro ela caçaria até o demônio. Especialmente
com o inverno chegando…


O fluxo de pensamentos foi interrompido pelo som de folhas secas se partindo. Era uma das
vantagens de caçar no outono: armadilha nenhuma era melhor do que as folhas espalhadas pelo chão,
partindo-se ao menor toque. Dimitria girou o corpo agilmente, tensionando uma flecha em seu arco e
virando-a na direção do som. Sua mira era boa, mas ainda melhores eram as flechas encantadas que ela
usava. Dimitria sentia o arco puxando levemente para a esquerda, e sabia que a magia estava procurando
o alvo. Ela relaxou os músculos, deixando que o arco a guiasse: era seu irmão, Igor, que fazia suas armas,
e ela confiava mais nele do que em si mesma. A qualquer momento agora...


Em um segundo, o bicho apareceu. Era maior do que Dimitria esperava - pelo menos dois metros e
meio de altura - mas com certeza tinha passado por um verão duro: sua pele flácida mostrava as costelas,
o casaco branco emplastrado de lama e sangue. Seu focinho arreganhou ao sentir o cheiro de Dimitria e
ele avançou com as garras à mostra.


Ela desviou do ataque rolando para o lado, sentindo o impacto do animal contra a parede do
estábulo. Os cavalos relincharam do lado de dentro, assustados, fazendo com que o urso, enfeitiçado por
sua fome, perdesse noção da caçadora. Ele investiu contra a madeira novamente, e mesmo com seu corpo
emaciado, rachaduras surgiram no estábulo. Dimitria se apoiou no joelho, tensionando novamente a
flecha e soltando-a com fluidez.


Sua mira era quase perfeita e a arma encantada corrigiu a trajetória em alguns milímetros, cravando no flanco

esquerdo do urso. Ele urrou, virando-se novamente para Dimitria, e seu braço dobrou por
cima da cabeça para apanhar mais flechas - mas suas mãos encontraram o ar vazio. "Merda." Ela viu a
aljava caída há alguns metros, com certeza tendo se soltado quando ela rolou.


O urso aproveitou sua hesitação e lançou o corpo contra ela, derrubando Dimitria com o impacto
dolorido. Ela deslocou o ombro debaixo do corpanzil do animal, segurando suas patas para evitar que as
garras desfizessem seu rosto tal qual manteiga. Ainda assim, o urso conseguiu descer a pata direita contra
o ombro dela, e Dimitria sentiu sua carne se abrir como fogo, o grito de dor escalando sua garganta. O
urso urrou novamente, e ela pôde ver os pedaços de carne ainda presos entre os dentes, afiados como
facas.


"Facas. Facas!" Ela mal pensou em seus movimentos, alcançando a faca de caça presa em sua
cintura, e cravou a lâmina no pescoço do animal. O urso rosnava de dor, e mal conseguia reagir. O sangue
jorrava do ferimento, banhando Dimitria em uma torrente quente e carmim, e ela puxou a faca em direção
a si - abrindo uma linha vermelha que atravessava a jugular do animal. Em um segundo, os urros
cessaram - e o corpo do urso cedeu por cima de Dimitria, inerte.


Dimitria agradeceu a todos os deuses que conhecia pela fome do animal - não fosse isso, ela jamais
teria conseguido levantá-lo de cima dela, engolindo o ar em espasmos fundos. Seu corpo estava coberto de
sujeira e sangue, e ela sentiu uma dor aguda ao mover seu braço - era o ombro que ele havia rasgado, a
carne exposta por baixo dos retalhos de sua roupa de couro. Bom, com o dinheiro daquele trabalho ela
poderia repor seu guarda-roupa.


Mas não era nisso que ela estava pensando, na verdade, e mesmo a dor ficou em segundo plano
quando seus olhos pousaram no animal. Sim, ela era uma caçadora, e sua relação com predadores como
aquele era conflituosa, no mínimo. Mas ela não sentia prazer em matá-lo, e ao se aproximar do urso, a
única coisa que sentia era tristeza.
Dimitria se ajoelhou ao lado dele, pousando a mão boa em seu focinho. O nariz ainda estava
quente, e ela sentia os pelos duros e brancos pinicando-lhe a mão. Não havia nada além dos sons de
relinchos enchendo o ar gelado, e sua voz saiu rouca e baixa.


— A uma noite longa e sem fome, querido urso. Que seu corpo alimente a terra, e que a terra me
alimente, para que um dia eu possa alimentá-la a seu lado.


Ela deixou alguns minutos passarem, os olhos voltados para o céu. Só quando se levantou percebeu
que estivera prendendo a respiração - e a soltou em um suspiro trêmulo.
Era hora de pegar sua recompensa.


***


Os inimigos de Bóris van Vintermer costumavam dizer que o mercador tinha feito sua fortuna por
causa de sua lábia, e seus amigos provavelmente diriam a mesma coisa. Dimitria não sabia se era verdade
- mas, se fosse, ele devia ter uma língua prateada, pois a mansão dos van Vintermer era uma das casas
mais bonitas que ela já havia visto.
Uma coisa era certa: ela não pertencia aquele lugar. Dimitria riu ironicamente ao observar seus pés
deixando marcas marrons e vermelhas no piso de mármore, e tentou se mover o mínimo possível para não
pingar sangue e sujeira. Ainda assim, foi como se Bóris não tivesse notado seu estado: o patriarca sorria
abertamente ao descer a escada, e tomou a mão de Dimitria na sua para um aperto caloroso.
Bóris era um homem grande, largo, e por mais que o tempo tivesse desgastado suas arestas, ainda
muito bonito. Seus cabelos ainda não davam sinais de desistir, as ondas louras acomodadas por cima de
um par de olhos verdes e brilhantes. As sardas lhe garantiam um ar jovial, quase inocente - que escondia
um temperamento de ferro e ótimo faro para negócios.


— Eu sabia que não me arrependeria de contratá-la, senhorita Coromandel. Há homens que podem
derrubar um urso daquele, é claro, mas com certeza não com a sua eficiência. E você salvou Tornada, é
claro, o mais importante.


— Tornada? — Dimitria levantou uma sobrancelha, apertando a mão de Bóris de volta. Nisso, uma
cabeça ruiva saiu de trás do corpanzil do homem, os cachos balançando alegremente.


— Minha pônei. É Princesa Tornada Feldspato Estrela. A gente achava que era menino quando
nasceu, por isso era Tornado, mas ele não tem o -
— Astra. — Bóris interrompeu a garota, bem humorado, e pousou a mão livre na cabeça da filha. —
Educação, filha. Acho que a senhorita Coromandel não precisa saber dos detalhes ginecológicos do seu
pônei.


— Minha pônei, papai. E ela salvou a vida da Tornada. Pensando bem, talvez ela devesse chamar
Princesa Tornada Feldspato Estrela Coromandel…


— Ah… Dimitria. Pode me chamar de Dimitria. — A caçadora soltou a mão de Bóris, sorrindo sem
jeito. — E foi um prazer salvar a Princesa. Falando nisso…


Dimitria enfiou a mão no bolso e puxou a flecha que usara para atirar no urso, girando-a nas mãos
para que a ponta apontasse para si. Bóris fechou os dedos ao redor da flecha, admirando-a. Era costume
da caçadora deixar ao menos uma flecha com quem quer que a contratasse, como lembrança de um
trabalho bem feito.


— Muito bem. — Bóris guardou a flecha no próprio bolso, os olhos brilhantes. — Os guardas estão
esperando com a sua recompensa do lado de fora, Dimitria. Há mais alguma coisa que eu possa oferecer a
você antes de sua partida?


— Nada que me venha em men-


— Ah, papai, chame ela para jantar! — Astra puxou a manga do pai, os olhos como pires brilhantes.


— Ela merece um jantar em sua honra, salvou o membro mais importante da nossa família.


Bóris riu, bem humorado.


— Adoraríamos tê-la conosco, Dimitria.


— Eu não posso aceitar. — Dimitria sorriu sem jeito, sentindo-se imediatamente pouco a vontade:
não tinha nem ao menos o que vestir para frequentar um jantar dos van Vintermer. Ainda assim, Bóris
tinha um jeito de falar que parecia não admitir respostas negativas - mesmo que Dimitria não fosse
exatamente tímida.

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